quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Grito Rock São Carlos 2010 – resenhas e outras impressões

por Jovem Palerosi
A terceira edição sãocarlense do maior festival integrado da América Latina ressignificou totalmente a estrutura e organização. O Massa Coletiva propôs um grande espetáculo em dois dias de realização. A segunda e terça de carnaval foram tomadas por bandas independentes de todo país, além de outras apresentações artísticas, agregando Coletivos e diversas iniciativas.

O espaço durante o dia foi o da Estação Cultura, já lendário por ter os trens passando e intervindo junto aos shows, em momentos incríveis tanto para as bandas, quanto para o público.

O mestre de cerimônia, em ritmo de folia, fazia a ponte entre as atrações musicais, teatrais (com o Grupo Urucum de Teatro Experimental), a mostra de vídeos Clarão, a Feira de Cultura e Economia Solidária e a Discotecagem Radiofônica Independência ou Marte, que apresentava as bandas, e fazia outras intervenções alienígenas.Link

Importante lembrar que tudo estava sendo transmitido Ao Vivo também na Web Radio Fora do Eixo, no Canal#2 e em alguns momentos na Rádio UFSCar, em 95,3 FM para toda São Carlos e região.

15/02
Na tarde ensolarada de segunda-feira, pontualmente às 16h, a primeira atração foi de Belo Horizonte, com o
Enne, banda que faz parte do Coletivo Pegada. Muita distorção nas duas guitarras, punch forte na bateria e baixo, e sensibilidade nas letras, em português e inglês. Além de sons dos dois primeiros discos, eles tocaram alguns sons que provavelmente estarão no próximo álbum.


O público começava a chegar em maior número, e quem subia no palco do Festival pelo segundo ano consecutivo eram as meninas do Nota Promissória. Elas possuem toda uma proposta estética muito bem desenvolvida no visual e no formato do show, que conta somente com músicas próprias, que falam de um universo pop rock adolescente. A festa começava, muita gente ficou entusiasmada com a apresentação e desenvoltura delas.

A próxima atração era mais madura, com mais estrada e outras referências, desta vez mais sessentista, com timbres e estrutura musical típicas de bandas de rock mais clássicas. The Wanteds, de Franca, em link com o Coletivo Guerrilha Gig, trouxe sua experiência de quase dez anos de estrada. O show variou com alguns bons momentos, e outros pontos mais frios principalmente na comunicação com o público. Mas nem a longa passagem do trem, que impossibilitou uma melhor audição de alguns sons estragou a empolgação dos músicos que saíram bastante satisfeitos com o evento.

No cair da tarde de segunda, o Grito chegou talvez ao ápice de pessoas na Estação, e justamente em um dos melhor shows deste ano. Eu Serei a Hiena foi a banda que mais se diferenciou entre as dezesseis atrações musicais, pela proposta de experimentação dentro de instrumentos comuns de rock, com duas guitarras, baixo e bateria apenas. A maior parte das músicas são instrumentais e chamam atenção não pelo virtuosismo, mas pela versatilidade e química dos integrantes, que constroem diversos climas dentre de cada canção. Intensidade e suavidade caminhando lado a lado em todos os sons, criando paisagens e poéticas únicas, sem rótulo, ao não ser o da expressão autônoma. No final do show, eles também demonstraram mais uma vez a satisfação em estar circulando pelo Festival Integrado e agradeceram de maneira muito sincera a receptividade de todos.

Então a noite chegou, criando um clima ideal para a entrada de Johnny Hooker & Candeias Rock City. Como enfatizaram diversas vezes ao longo do show, eles vieram do bairro que dá nome à banda, que é de Jaboatão dos Guararapes, grande Recife (PE). De lá, tiram diversas temáticas para o rock muito influenciado pelos Stones, mas com muito mais Glam, principalmente na performance do vocalista, que às vezes exagera em seu posicionamento junkie libertino. Incrivelmente, o público demorou para responder aos constantes estímulos entre todas as músicas, mas no final, depois de muito esforço, se entregaram a idéia e chegou junto a banda, causando um feedback muito interessante para o final do show.

Mas o show que mais teve receptividade do público, sem dúvida alguma foram os “vizinhos” do Rélpis. Eles vieram do Grito que organizaram em Araraquara, muito instigados, e se encaixaram muito bem na programação, já que possuem um espírito carnavalesco nas músicas, o que arrebatou quem já conhecia e cantava junto e os novos fãs que fizeram. Durante toda apresentação, danças e rodas, em clima de psicodelia hippie, marchinhas e rock rural, tudo muito sincero e divertido. A banda é bem madura, mas ainda tende a cada vez mais crescer pela união natural de seus integrantes e pela forma como vivem o processo artístico com um todo. Representaram muito bem o espírito de artes integradas que levantam com a bandeira do Coletivo Colméia Cultural, e deixaram a galera com gostinho de querer mais, porém já era hora de deixar a estação, e ir rumo ao Armazém Bar.

A primeira Festa na madrugada do Grito foi no estilo inferninho. No começo da noite, discotecagem em vinil, com o acervo do Massa Coletiva e depois, os incríveis shows do Almighty Devildogs de Bauru e o Leptospirose, de Bragança Paulista. A primeira apresentação, segundo a própria banda, foi histórica, já que o público se entregou sem barreiras ao surf rock dançante e de pegada forte, com duas guitarras estridentes e samples que se mesclavam ao instrumental, variando entre músicas próprias e algumas versões.

A segunda banda foi quase que uma surpresa para todos, já que cativou todos à base de um som muito pesado, fusão entre punk, hardcore e metal. O vocalista Quique Brown, com seu visual oitentista-pop-fuleiro, fazia diversas intervenções e comentários que aproximavam ainda mais todos da trasheira alto astral. Mesmo quem não conhecia o som, se rendeu ao espetáculo e à jam session da sequência, com os outros músicos do evento se juntando para fazer alguns clássicos do rock. No final da noite, o DJ Ricardo Rodrigues não deixou ninguém nem ao menos respirar com hits de rock, pop e eletro assim como o programa Ouvido Pop, que ele comanda na Rádio UFSCar, onde também é coordenador artístico.

16/02
Na terça-feira o público chegou um pouco mais tarde e o festival acabou começando um pouco mais tarde, mas quase tudo dentro do previsto.

Quem começou a bagunça foi a turma do Ubelina 69, que também havia se apresentado na edição do ano passado. No repertório, músicas autenticamente toscas sobre situações da vida do rock, paródias obscuras, e outras ficções muito bem humoradas. Tocaram músicas do primeiro disco e outras novas que devem estar no lançamento que prometeram para este ano.

Depois, foi a vez do Dom Capaz, banda parceira do Coletivo Goma de Uberlândia (MG), que circulou em diversos Festivais no ano passado, mas veio pela primeira vez para a cidade de São Carlos. Rock, samba, situações de vida e amor permearam toda a apresentação, que foi ganhando intensidade ao longo dos quarenta minutos reservados a eles.

Em clima de narração esportiva, carregando a bandeira do time, o Ibis, chegou de Serrana para apresentar mais uma vez naquele espaço o seu punk rock de várzea. Como eles mesmo ressaltaram no show, o nome do “pior time do mundo” não é a toa, pois representa o espírito de um amadorismo sincero da banda, no melhor estilo faça você mesmo com o que sabe. Mesmo assim, as músicas são bem interessantes, mesclando situações de vida e sentimentos com o futebol, com vocais femininos e muita descontração.

Aliás, essa foi a marca da metade final dos shows. Na sequência foi o Inimitáveis, de Cuiabá (MT), representando a cidade que iniciou a história do Festival Integrado. Eles chegara ainda meio atordoados pela longa viagem, mas vestiram seus ternos pretos e fizeram um show bem rápido e muito bem humorado, com músicas bem ao estilo iê-iê-iê da jovem guarda, influenciados pelos artistas que os fizeram iniciar o projeto. Fizeram somente músicas de sua autoria e uma versão de uma música de Nevilton, que subiu no palco para cantar e errar a letra. Mesmo assim, valeu o espírito de confraternização e o astral coletivo.

O Vandaluz foi outra banda que chegou pela primeira vez na cidade, representando o Coletivo Peleja, de Patos de Minas. Poesia, grooves alucinógenos e experimentações com samples, flauta e outras influências dentro de uma pegada bem rock and roll. Fizeram um dos shows mais animados e instigantes do Festival, cheio de críticas à sociedade e aos comportamentos nas letras. No final do show, ainda teve a histórica parceria com a banda Dom Capaz, com uma som que eles compuseram juntos na estrada; palco cheio e sinceridade boa de grandes músicos de diferentes gerações, integrados pela verdadeira vontade de fazer música.

O último show da Estação foi de Nevilton, banda que carrega o nome do vocalista, de Umuarama (PR). Trio de rock-pop-experimental, a maior parte do repertório foi do recém-lançado EP Pressuposto, mais algumas músicas de singles e outras demos lançadas, além de versões em pout-porri até de Hermeto Pacoal. Durante toda apresentação eles enfatizaram a celebração do carnaval, e fizeram diversas intervenções com o público, como no final, quando desceram do palco, ou quando chamaram o Inimitáveis também para compartilhar a bagunça. O final do show foi catártico, contando com intervenções da Discotecagem soltando efeitos e samples para se comunicar.

O discurso do mestre de cerimônias enfatizou a importância do espetáculo, da revolução na realização e na maneira de enxergar o mundo, e chamou todos juntos para comemorar a festa que ainda não tinha acabado, já que a madrugada ainda era longa.

Assim como no outro dia, todos se dirigiram ao Armazém Bar para mais shows e a Discotecagem Radiofônica Independência ou Marte, que com seu repertório de música contemporânea brasileira fez as honras da casa no início, meio e fim da balada, colocando todos para dançar até quase de manhã.

Quem começou a loucura foi o Aeromoças e Tenistas Russas, banda já referencial na cidade, que vive uma crescente muito boa, de composição e amadurecimento de criação, chegando empolgados também pela circulação nas outras edições do Grito. A maioria das músicas são instrumentais, composições experimentais que fundem gêneros, e em alguns momentos cabem alguns vocais mais rock, samba e funk. A interação com o público foi histórica, com destaque para o momento em câmera lenta, quando todos os presentes na pista simularam um slow motion para as filmagens. Coube ainda uma música nova, ainda sem nome, que finalizou a apresentação, com o improviso de scratches.

Ninguém parou de dançar um minuto depois do show, a pista continuou cheia e na sequência mais um show incrível, desta vez com o reggae cheio de groove e outras experimentações de Juca Culatra & Power Trio. Direto de Belém (PA), eles fizeram o público cantar as músicas, se entregando totalmente às viagens amazônicas, grooves em diálogo com o samba-rock e outras mensagens positivas emanadas. O único momento em que perderam o domínio do show foi nas participações especiais, que fizeram um boa bagunça generalizada, com a galera do Nevilton, Aeromoças e outras bandas invadindo o palco. Só depois de “expulsar” todo mundo, conseguiram finalizar o show de verdade.


O espírito de liberdade e celebração no Carnaval foi contemplado de todas as maneiras possível. Organização, público e artistas contemplados pela magia presente no evento, e a vontade de inventar cada vez mais, sempre juntos.

Fotos:
Luccas Barrossa (Enxame Coletivo), Rafael Rolim e Daniela Teixeira (Massa Coletiva)

Um comentário:

[Rock Alive] - Ari Holtz disse...

FUDIDO CARAS!! Ano que vem vou praí curtir, aprender e dar um help!! Grande Abraço Brothers!!
Ari.